Dever de casa com IA sem fazer pelo filho: 3 comandos que ensinam
Três comandos que fazem a IA explicar como se fosse o aluno, perguntar em vez de responder e conferir sem entregar o gabarito. E a regra da casa sobre IA na escola.
Neste texto
Quarta, 20h30. O Léo, 15 anos, entregou o trabalho de história em 12 minutos. Doze. Um texto de duas páginas sobre a Revolução Industrial, sem um erro de vírgula, com a palavra “paradigma”. Meu filho não usa “paradigma”. Eu perguntei de onde tinha saído e ele disse “do ChatGPT, pai, todo mundo faz”. No mesmo dia a Bia, 11, chorava na mesa da cozinha porque não entendia fração e eu, analista contábil, não conseguia explicar sem deixar mais confuso.
Rapaz, eu tinha os dois problemas de uma vez. Um filho usando a IA pra não pensar. Outra precisando de ajuda que eu não sabia dar. E a Cláudia dizendo “você é o entusiasta da casa, resolve”.
Minha primeira reação foi proibir. Durou uma semana. O Léo usou escondido no celular, e a Bia continuou sem entender fração. Aí fui ler o que a professora Denise escreveu sobre como ela percebe trabalho feito por IA e entendi o óbvio: o problema não era a ferramenta, era o comando. “Faça meu trabalho” é um comando. “Me faça perguntas sobre isso” é outro. Mudei três comandos, fizemos uma regra da casa, e a nota do Léo foi de 5,5 pra 7,8 em dois bimestres. Escrevendo ele mesmo.
Neste texto você vai sair sabendo: fazer a IA explicar a matéria no nível do seu filho, sem resolver a lição; fazer ela perguntar em vez de responder; conferir o dever pronto sem entregar o gabarito; e montar uma regra simples pra IA na escola, que a professora aprova.
O que você precisa
- Celular ou computador. Aqui em casa é no computador da sala, não no quarto. Faz parte da regra.
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. A Bia prefere o Gemini porque ele “fala mais devagar”. Não sei se é verdade, mas ela gosta.
- 10 minutos por lição, junto com o filho. Junto. Isso é o que mais custa e o que mais funciona.
- A lição de verdade: foto do caderno, do livro, ou o enunciado copiado.
Passo 1 — “Me explique como se eu fosse o aluno”
O primeiro comando serve pra quando o filho não entende a matéria, como a Bia com fração. Você não pede a resposta. Pede a explicação, no nível de quem está aprendendo, com exemplo da vida dele.
Explique [fração: somar frações com denominadores diferentes] como se eu fosse [uma aluna de 11 anos, 6º ano] que ainda não entendeu. Use um exemplo de coisa da vida dela ([pizza, chocolate, tempo de videogame]). Vá por partes, uma ideia de cada vez, e no fim de cada parte pergunte se eu entendi antes de continuar. Não resolva nenhum exercício do dever, só explique a ideia.
Ele começou com uma barra de chocolate dividida em 4 e outra em 8. Perguntou “quantos pedaços da barra de 8 dão o mesmo tanto que 1 pedaço da de 4?”. A Bia respondeu “2”. Ele disse “isso, então 1/4 é a mesma coisa que 2/8”, e perguntou se podia continuar. Ela disse que sim. Quinze minutos depois ela estava somando 1/4 com 3/8 sozinha.
Na primeira vez esqueci de escrever “não resolva nenhum exercício do dever”. A Bia, esperta, colou a lição inteira no fim da conversa e ele resolveu as 8 contas. Foi a Cláudia que viu. Coloquei a frase, e agora quando ela tenta colar o exercício ele responde “vamos fazer juntos: qual é o primeiro passo?”. Ela reclama, mas faz.
O detalhe “pergunte se eu entendi antes de continuar” é o que faz virar aula e não texto. Sem ele, vem uma explicação de 3 parágrafos que ela lê e não retém. Com ele, vira conversa, e criança conversa.
Passo 2 — “Me faça perguntas”
Esse foi o comando que salvou o Léo. Trabalho de história, redação, resumo de livro: ele não precisa de explicação, precisa de alguém que force ele a pensar antes de escrever. A IA faz isso muito bem, se você mandar.
Vou escrever um trabalho sobre [a Revolução Industrial] pra [história, 9º ano]. Não escreva nada por mim. Me faça [5 perguntas], uma de cada vez, que me obriguem a pensar sobre o assunto: causa, consequência, quem ganhou, quem perdeu, o que mudou até hoje. Espere minha resposta antes da próxima pergunta. Se eu responder “não sei”, me dê uma pista, não a resposta. No fim, me diga quais das minhas respostas ficaram fracas e por quê.
O Léo respondeu as cinco perguntas em uns 25 minutos, resmungando. A terceira (“quem perdeu com a Revolução Industrial?”) ele respondeu “não sei” e recebeu a pista “pense em quem fazia o trabalho antes das máquinas”. Ele escreveu “os artesãos”. No fim, a IA disse que a resposta sobre consequência estava “genérica” e pediu um exemplo. Aí ele escreveu o trabalho, sozinho, no caderno, com as respostas dele. Sem “paradigma”.
Ele tentou burlar, claro. Escreveu “responde você” na segunda pergunta. A IA respondeu “posso te dar uma pista, mas a resposta é sua”. Ele veio reclamar comigo que “o comando está travado”. Eu disse que era essa a ideia. Ele revirou os olhos. Tem 15 anos, é o trabalho dele.
A professora Denise explica no texto dela que o que entrega trabalho feito por IA não é a palavra difícil, é a falta de opinião do aluno. Esse comando faz o contrário: só sai texto depois que o aluno teve opinião. Foram dois bimestres até o 7,8, com comentário da professora: “melhorou muito a argumentação”. A Cláudia guardou a folha.
Passo 3 — Conferir sem dar a resposta
Dever pronto, feito pelo filho. Agora você quer saber se está certo, mas não quer que a IA entregue o gabarito. Se entregar, o filho apaga o dele e copia. Eu sei porque aconteceu.
Aqui está o dever de [matemática, 6º ano] que [minha filha] fez: [cole ou tire foto]. Não corrija e não dê a resposta certa. Só me diga em quais exercícios ela provavelmente errou e, pra cada um, uma pergunta que eu possa fazer pra ela perceber o erro sozinha. Se estiver tudo certo, diga isso.
Na lição de fração, ele apontou o exercício 5 e sugeriu a pergunta “o denominador muda quando você soma?”. Eu fiz a pergunta. A Bia olhou, disse “ah, não”, apagou e refez. Certo. Ela que corrigiu, não eu, não ele.
Numa redação do Léo, pedi “confira” sem dizer “não reescreva”. Ele devolveu a redação inteira reescrita, bonita, dele. O Léo achou ótimo. Eu apaguei a conversa. Regra: a IA aponta, a criança conserta. Se a IA consertou, a criança não aprendeu.
Esse comando funciona com foto do caderno. Tirei com o celular, mandei, ele leu a letra da Bia (que não é fácil). Errou uma vez um número, um 7 que parecia 1. Conferi eu, porque foto de caderno é chute educado.
O resultado
Dois bimestres. Léo de 5,5 pra 7,8 em história, escrevendo ele mesmo. Bia somando fração sem chorar, e agora “ajudando” a IA a explicar pra ela (é o jeito dela). Eu, 10 minutos por dia sentado com cada um, que era o que eu não fazia antes e agora faço. A regra da casa está na porta da geladeira, embaixo do cardápio: IA na sala, não no quarto. IA explica e pergunta, não escreve. Trabalho pra escola só com o comando de perguntas. E se a professora perguntar se usou IA, a resposta é sim, e mostra a conversa.
Mostrei a regra pra professora do Léo na reunião de pais. Ela leu, disse “isso é o que eu peço”, e perguntou se podia mostrar pra outros pais. Pode.
Analista contábil, casado com a Cláudia, pai do Léo e da Bia. Usa IA pra tudo que é chato em casa. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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