Currículo com IA sem mentir: resultado com número no lugar de tarefa
Três comandos pra transformar "fazia planilha" em resultado que se mede, adaptar o texto pra vaga e escrever uma carta de 6 linhas. Eu usei pra pedir aumento.
Neste texto
Sábado, 10h, março deste ano. Fim de semana sem a Júlia, chuva, e eu abri um arquivo chamado “curriculo_marcos_2019.doc”. Não era pra sair da empresa. Era porque na segunda-feira eu ia pedir uma conversa com meu chefe sobre mudar de faixa salarial, e queria chegar com alguma coisa na mão que não fosse só “eu acho que mereço”.
O currículo tinha isto na parte de experiência: “Responsável por planilhas de RH e financeiro. Apoio ao fechamento de folha. Atendimento a demandas administrativas.” Três linhas que descrevem, ao mesmo tempo, o meu trabalho e o de qualquer pessoa em qualquer empresa do país. Eu li e pensei: se eu fosse meu chefe, não dava aumento pra isso.
O problema não era mentir. Eu sei o que eu faço e sei que é bom. O problema era que eu não sabia escrever o que eu faço de um jeito que alguém medisse. A IA sabe. E ela faz isso perguntando, não inventando, se você mandar direito.
Neste texto você vai sair sabendo: transformar tarefa (“fazia planilha”) em resultado com número, sem inventar número; adaptar o currículo pra uma vaga específica, interna ou externa; escrever uma carta curta que não pareça modelo da internet; e o que nunca colar nesse processo.
O que você precisa
- Computador ou celular; no computador é mais fácil copiar e colar.
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. O Copilot dentro do Word também serve, se você já tem Microsoft 365.
- Seu currículo atual, por pior que esteja.
- Quinze minutos de memória: o que você fez nos últimos dois anos que deu certo.
- A descrição da vaga, se for uma vaga. Se for promoção interna, o que você acha que o cargo de cima faz.
Passo 1 — De tarefa a resultado, sem inventar número
Esse é o passo que muda tudo, e é onde a maioria erra pro lado da mentira. Se você pede “melhora meu currículo”, a IA devolve “otimizei processos com impacto significativo em eficiência operacional”. O segredo é proibir ela de inventar e mandar ela perguntar.
Vou colar uma linha do meu currículo. Sou assistente administrativo em empresa de médio porte, área de RH e financeiro. Reescreva a linha como resultado que se mede, em português do Brasil, sem adjetivo e sem palavra em inglês. Regra: você NÃO pode inventar número. Se a frase precisa de um número que eu não dei, me faça a pergunta e espere minha resposta antes de escrever. Linha: [Responsável por planilhas de RH e financeiro.]
Ele não escreveu nada. Fez três perguntas: quantos funcionários a planilha cobre, que tipo de problema ela evita, e se eu tinha comparação de antes e depois. Eu respondi com o que sabia: 400 funcionários; erro de lançamento na folha; antes eram uns 11 ajustes por mês, depois que eu montei a conferência caiu pra 2.
Aí ele escreveu: “Criei rotina de conferência da folha de 400 funcionários que reduziu ajustes de 11 para 2 por mês.” Tudo verdade. Tudo meu. Eu só nunca tinha juntado as peças.
Na primeira vez eu não coloquei a regra do “não pode inventar número”. Ele escreveu “reduzi em 80% os erros de folha”. Eu não tinha dado 80% pra ele, ele chutou. Por acaso batia com a conta (11 pra 2 é 82%), mas se eu tivesse mandado sem conferir e o chefe perguntasse “80% de onde?”, eu não saberia responder. Número no currículo tem que ter uma história por trás que você conta em 20 segundos.
Fiz isso com cada linha. As perguntas dele me fizeram lembrar de coisa que eu tinha esquecido: o fornecedor de vale-transporte que eu troquei e economizou R$ 1.900 por mês; o arquivo de admissões que eu organizei e cortou o tempo de achar documento de 20 minutos pra 2.
Passo 2 — Adaptar pra vaga (ou pro cargo de cima)
Currículo genérico é currículo que não serve pra nada. O mesmo texto que vale pra vaga de assistente financeiro não vale pra analista de RH. No meu caso a “vaga” era a faixa acima do meu cargo, e o que eu tinha era a descrição do que essa faixa faz, tirada do plano de cargos da empresa.
Abaixo está meu currículo já com resultados, e depois a descrição da [vaga / faixa de cargo]. Reordene e ajuste o currículo pra destacar primeiro o que essa vaga pede. Não adicione experiência que não está no meu texto. Se a vaga pede algo que eu não tenho, me avise em uma lista separada, em vez de fingir que tenho. Currículo: [cole]. Vaga: [cole a descrição, sem nome da empresa nem dado interno].
A lista do que eu não tinha foi o mais útil do processo inteiro. A faixa acima pedia “conciliação bancária”. Eu fazia, mas nunca tinha escrito. Voltei pro Passo 1 com essa linha e ela virou “conciliei 3 contas bancárias mensalmente, com fechamento até o 3º dia útil”. Também pedia “gestão de contratos”, que eu de fato não faço. Ficou de fora. Não é vergonha não ter; vergonha é dizer que tem.
Colei a descrição da faixa com o nome da empresa e a tabela salarial junto, sem pensar. Parei, apaguei a conversa, comecei de novo só com a descrição das atividades. Plano de cargos, salário e nome da empresa são dado interno. Não vai pra IA, mesmo que a IA seja só eu conversando com ela.
Passo 3 — Carta curta que parece você
Carta de apresentação, ou no meu caso o texto que eu levei impresso pra conversa, tem um problema: tudo que a IA escreve sozinha parece carta. “Venho por meio desta manifestar meu interesse.” O comando precisa dizer o tamanho, o tom e o que não pode ter.
Escreva uma carta curta, máximo 6 linhas, em português do Brasil, de um assistente administrativo [pedindo conversa sobre mudança de faixa salarial / se candidatando à vaga X]. Base: os três resultados abaixo. Tom direto e adulto, sem “venho por meio desta”, sem “estou muito animado”, sem adjetivo sobre mim mesmo. Terminar com um pedido claro: [uma conversa de 20 minutos na próxima semana]. Resultados: [cole os três melhores].
Saiu em cinco linhas. Troquei uma palavra (“robusto”, que eu nunca disse na vida) e imprimi.
A primeira versão terminava com “acredito que tenho muito a contribuir”. Frase de quem está pedindo desculpa. Pedi “termine com o pedido, não com elogio a mim mesmo”. O final ficou: “Gostaria de 20 minutos na próxima semana pra conversarmos sobre a mudança de faixa.” Direto. O chefe respondeu “quinta, 15h”.
O resultado
Na conversa de quinta eu levei uma folha com cinco resultados e a carta. Meu chefe leu, ficou quieto uns segundos e disse: “eu não sabia do vale-transporte.” Não virei gerente, continuo assistente e continuo não mandando em ninguém. Mas em maio saiu a mudança de faixa: R$ 380 a mais por mês. Pra quem paga pensão e ônibus, isso é um mês mais leve.
O arquivo agora se chama “curriculo_marcos_2026” e eu atualizo a cada três meses com o comando do Passo 1, porque a memória some. Não fiquei mais competente em março. Só aprendi a contar o que já fazia. Como o Ribamar diz nos textos dele, ele não é de tecnologia, é de planilha. Eu também. Só que agora a planilha está escrita no currículo com número.
Assistente administrativo em empresa de médio porte. Não manda em ninguém, recebe demanda de todo mundo. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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