Atividade adaptada pra TDAH, dislexia e aluno sem português com IA
Um comando, três versões da mesma atividade. No fim, os três alunos trabalham a mesma habilidade da BNCC que a turma — e nenhum recebe folha de "criança".
Neste texto
Quarta, 7h15, sala do 7º ano da escola pública. Trinta e dois alunos, e três deles eu já sabia que não iam conseguir fazer a atividade do jeito que estava. O Pedro, com TDAH, para na terceira linha de qualquer texto longo. A Ana Júlia, com dislexia, lê, mas leva o triplo do tempo e desiste antes da pergunta. E o Yeferson, que chegou da Venezuela em maio, entende metade do que ouve e quase nada do que lê em português.
Gente, olha só o que eu fazia antes: a mesma folha pros três, e um “faz o que der” no ouvido de cada um. Eu sabia que era errado. Só não tinha mais três horas na semana pra fazer três atividades diferentes. Ou fazia uma versão “mais fácil”, que era a atividade do 4º ano com o título trocado. O Pedro tem 12 anos. Ele olhava a folha com desenho de sol e sabia exatamente o que aquilo significava.
Na terça anterior eu tinha feito diferente. Oito minutos no ChatGPT, e na quarta os três tinham uma folha só deles. Mesma crônica, mesma habilidade, três caminhos.
Neste texto você vai sair sabendo: pedir três versões da mesma atividade sem mudar a habilidade da BNCC; descrever a dificuldade do aluno sem colar laudo nem nome; tirar o tom de “atividade de bebê”; e fazer isso pelo celular, na sala dos professores, sem Wi-Fi.
O que você precisa
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. Os dois fazem esse trabalho bem.
- A atividade original que a turma vai fazer, já pronta. Se ainda não tem, comece pelo plano de aula.
- O código da habilidade, tipo
[EF67LP28]. Confira o enunciado no site do MEC, não confie na descrição que a IA dá. - Celular serve. Eu fiz pelo aplicativo, com dados móveis, no intervalo.
- 8 minutos. Mais uns 10 pra ler as três versões com calma, que é a parte que importa.
Passo 1 — Cole a atividade e descreva a dificuldade, nunca o aluno
A regra que abre todo texto meu: laudo não entra na IA. Nem nome, nem “aluno com CID tal”, nem a foto do relatório da psicóloga. O que entra é a dificuldade em termos de sala de aula. “Perde o foco em texto longo” descreve o Pedro sem entregar o Pedro.
Esta é uma atividade de [Língua Portuguesa] do [7º ano], habilidade BNCC [EF67LP28], sobre [crônica]: [cole a atividade original inteira]. Crie três versões adaptadas, mantendo a mesma habilidade, o mesmo texto-base e o mesmo objetivo. Versão A: para um aluno que perde o foco em textos longos e precisa de tarefas curtas e numeradas. Versão B: para um aluno que lê devagar e troca letras parecidas; use fonte que eu possa aumentar, frases curtas, espaço entre linhas e nenhuma pegadinha de leitura. Versão C: para um aluno que chegou ao Brasil há [3 meses] e ainda está aprendendo português; use vocabulário simples, apoio em imagem descrita e uma pergunta em espanhol ao lado de cada pergunta em português. Não infantilize a linguagem: os alunos têm [12 anos]. Coloque o código da habilidade no cabeçalho das três.
Repare que eu não digo “TDAH”, “dislexia” ou “imigrante”. Digo o que acontece na sala. Isso protege o aluno e, curiosamente, deixa a resposta melhor: a IA para de recitar definição de transtorno e resolve o problema concreto.
Na primeira tentativa eu escrevi “aluno com TDAH” e ela abriu a resposta com dois parágrafos explicando o que é TDAH. Eu sei o que é. Trabalho com isso há 26 anos. Quando troquei por “perde o foco em texto longo”, ela foi direto pra atividade: cinco tarefas de duas linhas, numeradas, com quadradinho pra marcar quando terminar. Era exatamente o que o Pedro precisava.
A versão C, do aluno recém-chegado, foi a que mais me surpreendeu. Ela colocou a pergunta em português e, ao lado, a mesma pergunta em espanhol. O Yeferson lê a de espanhol pra entender e responde em português, do jeito que consegue. Ele está aprendendo a língua fazendo a mesma tarefa que a turma. É isso que a BNCC pede, e é isso que eu não conseguia fazer sozinha.
Passo 2 — Tire o tom de bebê e teste a folha com olhos de aluno
Mesmo com “não infantilize” no comando, a IA escorrega. Aparece “vamos lá, pessoal!”, aparece estrelinha, aparece “muito bem!” no fim de cada item. Aluno de 12 anos detecta isso na hora. Então o segundo comando é uma limpeza.
Releia as três versões como um aluno de [12 anos] que tem vergonha de receber folha diferente dos colegas. Tire qualquer coisa que pareça atividade de criança pequena: emojis, “vamos lá”, exclamações, elogios automáticos. Mantenha o mesmo título e a mesma aparência da atividade original, para que as três folhas pareçam a mesma folha da turma. Me mostre só o que mudou.
A frase “que tem vergonha de receber folha diferente” veio de uma conversa com a Ana Júlia. Ela me disse que preferia tirar nota baixa a pegar “a folha dos que não sabem”. Desde então eu peço que as versões tenham o mesmo título, a mesma fonte no cabeçalho e o mesmo número de páginas. Ninguém na sala precisa saber que a folha dela tem espaço maior entre as linhas.
“Me mostre só o que mudou” é pra economizar leitura e, na escola pública, economizar dados. A resposta vem com dez linhas em vez de três páginas.
Depois disso, eu leio as três versões inteiras. Não é opcional. Uma vez a versão B trouxe uma pergunta com “bem” e “vem” na mesma linha. Pra quem troca letra parecida, é uma armadilha. A IA não sabe disso; eu sei. Troquei a palavra e imprimi.
Passo 3 — Sem internet? Faça no celular e mande pra você mesma
Na escola da manhã, o Wi-Fi não abre nem o diário de classe. Meu jeito: faço as três versões em casa, na terça à noite, pelo aplicativo. Copio o texto e mando pra mim mesma no WhatsApp. Na quarta, imprimo na secretaria ou, se a impressora está sem toner (que é quase sempre), leio a versão A pro Pedro em voz alta e ele responde no caderno.
Resuma a versão [A] em no máximo [8] linhas, no formato de tarefas numeradas, para eu ditar para o aluno copiar no caderno. Mantenha as mesmas perguntas.
Eu resisti a isso por semanas, achando que “ditar” era voltar pra trás. Não é. O Pedro copiando cinco tarefas numeradas no caderno dele, com quadradinho pra marcar, fez mais pela atenção dele do que qualquer folha bonita. E não gastou uma folha de xerox, que na minha escola é bem contado.
Se você quer conferir o enunciado da habilidade antes de imprimir, procure o código no site do MEC. A IA às vezes muda o número do código sem avisar. No cabeçalho da folha eu escrevo o código à mão, depois de conferir.
O resultado
Quarta, 7h50. Trinta e dois alunos fazendo atividade sobre a mesma crônica. Três folhas diferentes que pareciam iguais. O Pedro terminou as cinco tarefas e ainda marcou os quadradinhos. A Ana Júlia respondeu quatro de cinco, sem desistir na terceira linha. O Yeferson escreveu “la crônica é um texto de todo dia” e eu fiquei com o olho cheio d’água na frente da turma.
Mostrei as três versões pra professora do AEE antes de aplicar, e ela mudou duas coisas na versão B. Faço isso sempre. A IA não conhece o Pedro; a professora do AEE conhece; e eu, que fico com ele todo dia, conheço mais ainda.
26 anos de sala de aula, rede pública de manhã e particular à tarde. Nove turmas. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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