Feedback de 35 redações com IA em uma tarde (sem a IA dar a nota)
Três comandos e um critério colado. No fim, cada aluno recebe 3 pontos fortes e 2 a melhorar, escritos e assinados por você — em uma tarde, não em um fim de semana.
Neste texto
Sexta, 14h, sala dos professores da escola particular. Na minha frente, 35 redações do 9º ano sobre “o celular na sala de aula”. Todas dissertativas, todas com 25 a 30 linhas. Eu já sabia a conta: uns 12 minutos por redação pra ler, marcar e escrever um comentário decente. Sete horas. Ou seja: sábado inteiro.
Gente, olha só o que acontecia antes. Nas primeiras dez redações eu escrevia comentário caprichado. Da vigésima em diante, virava “bom texto, cuidado com a vírgula”. A aluna da redação 31 recebia menos atenção que o da redação 3, e não era culpa dele. Era cansaço. Vinte e seis anos de sala e eu ainda me sentia injusta toda vez que chegava no fim da pilha.
Naquela sexta eu testei um jeito diferente. Terminei às 17h40, com um comentário próprio pra cada um dos 35. E a nota, essa, continuou saindo da minha caneta.
Neste texto você vai sair sabendo: colar os critérios de correção da sua escola num comando; pedir 3 pontos fortes e 2 pontos a melhorar por redação, na linguagem do aluno; revisar e assinar cada comentário sem perder a sua voz; e reconhecer os erros que a IA comete quando avalia texto de adolescente.
O que você precisa
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. Eu uso o ChatGPT, mas testei os dois e o resultado é parecido.
- Os critérios de correção da sua escola (a grade, a rubrica, o que for). Se não tem, os cinco critérios da redação do Enem servem.
- As redações digitadas. Se foram feitas à mão, tire foto com o celular e peça pra IA transcrever — mas cubra o nome do aluno com o dedo antes.
- Celular serve. Fiz no notebook da sala dos professores; no celular funciona igual, pelo aplicativo.
- Uma tarde. Três horas e quarenta pra 35 redações, com pausa pro café.
Passo 1 — Cole o critério da escola antes de colar qualquer redação
O erro que todo mundo comete é colar a redação e perguntar “o que você acha?”. Aí a IA dá opinião de leitor, não de professora. Ela precisa saber o que a sua escola valoriza. Então a primeira mensagem é só o critério. Nenhuma redação ainda.
Você vai me ajudar a dar feedback em redações dissertativas do [9º ano do Ensino Fundamental]. Estes são os critérios de correção da minha escola: [cole aqui a grade: por exemplo, 1. tese clara na introdução; 2. dois argumentos com exemplo; 3. coesão entre parágrafos; 4. norma culta; 5. proposta de conclusão]. Guarde esses critérios. Para cada redação que eu mandar, escreva: 3 pontos fortes e 2 pontos a melhorar, cada um em uma frase curta, citando o trecho da redação. Linguagem direta, como uma professora falando com um aluno de 14 anos. Não dê nota. Não reescreva a redação. Só responda “pronto” agora.
Repare em três coisas no comando. “Não dê nota” é inegociável pra mim: nota é decisão pedagógica, e quem conhece a turma sou eu. “Citando o trecho” obriga a IA a apontar onde está o problema, em vez de dizer “melhore a coesão” no vazio. E “só responda pronto” evita que ela escreva três parágrafos elogiando os seus critérios.
Na primeira vez eu não coloquei “não reescreva a redação”. Ela devolveu a redação inteira reescrita, bonita, com palavras que aluno de 14 anos não usa. Se eu entregasse aquilo, o aluno ia aprender que o texto dele estava errado e o da máquina, certo. Não é isso que eu quero ensinar.
Uma coisa que vale repetir em todo texto meu: nunca cole o nome do aluno. Eu numero as redações antes de digitar. Redação 1, redação 2. O nome fica só na minha lista de papel. A IA não precisa saber quem é a Lívia ou o Kauã, e a escola tem regra sobre isso.
Passo 2 — Mande uma redação por vez e leia o que voltou
Agora sim. Cole a redação com o número no começo. Uma de cada vez, na mesma conversa. Eu tentei colar cinco de uma vez pra ganhar tempo e ela misturou os comentários entre os textos.
Redação [14]. Tema: [O celular na sala de aula]. Texto: [cole a redação inteira aqui, sem o nome do aluno].
O que volta é curto. Três frases de ponto forte, duas de ponto a melhorar, cada uma apontando um trecho. Na redação 14, por exemplo: “A tese aparece já na segunda frase (‘o celular pode ser aliado se houver regra’) — isso é um ponto forte.” E, no que melhorar: “No terceiro parágrafo, o argumento da distração não tem exemplo. Que situação da sua sala mostraria isso?”
Aqui entra a parte que ninguém pode pular: eu leio a redação. A redação, não só o comentário. Leva uns 3 minutos, porque agora eu leio com o comentário do lado, sabendo onde olhar. Se eu concordo, mantenho. Se não concordo, risco e escrevo o meu. A IA sugere, eu decido.
Ela elogia clichê. Isso foi o que mais me irritou. A redação 22 abria com “desde os primórdios da humanidade” e a IA colocou como ponto forte: “introdução contextualiza o tema”. Gente, não contextualiza nada. É a frase que todo aluno escreve quando não sabe começar. Risquei e escrevi: “Comece pelo seu tema, não pelos primórdios. O que o celular faz na SUA sala?”
Outros erros que aprendi a caçar: ela chama de “vocabulário rico” qualquer palavra difícil, mesmo mal usada. Ela não percebe quando o aluno copiou a frase do texto motivador. E ela acha bonito parágrafo de uma frase só. Um professor de Português vê isso em dois segundos. A máquina não vê.
Passo 3 — Passe pra sua voz e assine
O comentário que chega no aluno não pode parecer de robô. Meus alunos me conhecem há dois anos. Eles sabem como eu falo. Então eu faço uma coisa simples: depois de decidir o que fica, peço pra IA encurtar no meu jeito e copio pra ficha de feedback, escrevendo à mão o que for preciso.
Reescreva esses 5 pontos da redação [14] em no máximo 6 linhas, em tom de professora que gosta do aluno mas cobra. Comece com o que ele acertou. Termine com uma pergunta que ele consiga responder na próxima redação. Sem emoji, sem “parabéns”.
“Sem parabéns” foi ajuste da segunda leva. Todos os 35 comentários começavam com “Parabéns pelo esforço!”. Se todo mundo recebe parabéns, ninguém recebe. Tirei, e coloquei “comece com o que ele acertou”. Ficou específico: “Sua tese está clara desde o começo” diz muito mais.
No fim, eu assino. À mão, com a caneta roxa que eles conhecem. Não é frescura: o aluno precisa saber que uma pessoa leu o texto dele. E leu mesmo — porque eu li.
Se a internet da escola está ruim, faça como eu faço na rede pública de manhã: fotografe as redações em casa, digite ou peça transcrição à noite, e leve os comentários impressos. O aplicativo do ChatGPT funciona com dados móveis; só demora um pouco mais pra carregar a resposta.
O resultado
Sexta, 17h40. Trinta e cinco fichas de feedback, cada uma com três acertos, dois pontos pra melhorar e uma pergunta. Todas lidas por mim, várias corrigidas por mim, todas assinadas. Na segunda, uma aluna da redação 31 veio me perguntar como colocar exemplo no argumento da distração. Antes, a redação 31 recebia “bom texto, cuidado com a vírgula”.
O Marcos, lá do texto dele sobre e-mails difíceis, fala uma coisa que vale aqui: a máquina escreve o rascunho, mas quem assina responde por ele. Com redação de aluno é igual. Só que mais sério, porque do outro lado tem um menino de 14 anos esperando saber se escreve bem.
26 anos de sala de aula, rede pública de manhã e particular à tarde. Nove turmas. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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