Projeto interdisciplinar com IA em 40 min (BNCC de 3 áreas, grátis)
Português, História e Geografia numa reunião só. Três comandos que devolvem habilidades de cada área, cronograma de 4 semanas, produto final e rubrica — pra vocês três discutirem, não digitarem.
Neste texto
Quarta de março, 17h30, sala dos professores da escola particular. Eu, o Fábio de História e a Cristina de Geografia, com três cafés frios e a coordenadora cobrando o projeto interdisciplinar do 8º ano “até sexta”. A gente estava ali desde as 14h30. Três horas. Tínhamos um tema (migrações), duas ideias de produto final e nenhum cronograma.
O problema não era falta de vontade. Era que cada um abria a BNCC da própria área, procurava habilidade, lia em voz alta, e os outros dois esperavam. Alguém sugeria uma atividade, outro dizia “não cabe na minha carga horária”, e voltava. Três horas de reunião pra sair com uma folha de rascunho.
Na semana seguinte fiz diferente. Cheguei com um esboço gerado pela IA, impresso, uma cópia pra cada um. A reunião levou 40 minutos e saiu com cronograma de 4 semanas, produto final e rubrica. A gente discutiu, riscou, mudou — mas discutiu em cima de algo pronto.
Neste texto você vai sair sabendo: pedir à IA um projeto interdisciplinar com as habilidades de cada área no lugar certo; gerar o cronograma de 4 semanas que respeita a carga horária de cada professor; e montar a rubrica de avaliação que os três vão usar igual.
O que você precisa
- Conta grátis no ChatGPT. Serve o plano grátis. O ChatGPT Go custa R$ 39,99 por mês em agosto de 2026 e não é necessário aqui.
- Opcional, mas recomendo: NotebookLM, grátis, com o PDF da BNCC carregado. Explico por que no passo 1.
- Três coisas combinadas com os colegas antes, por WhatsApp mesmo: tema, ano e quantas aulas de cada área entram. Sem isso, a IA chuta.
- 15 minutos sozinha, antes da reunião. O celular serve, mas a tabela do cronograma fica melhor no computador.
Passo 1 — Peça as habilidades de cada área (e confira uma por uma)
Primeiro o esqueleto: tema, ano, as três áreas, e as habilidades que cada uma vai trabalhar. Aqui tem um cuidado que vale por todo o texto: a IA inventa código de habilidade e inventa enunciado. Com a maior cara de verdade.
Por isso uso o NotebookLM nessa parte. Baixo o PDF da BNCC no site do MEC, carrego nele, e faço as perguntas ali. Ele responde só com o que está no documento e mostra a página. No ChatGPT, dá pra fazer o mesmo comando, mas aí a conferência no site do MEC é obrigatória, não opcional.
Monte a base de um projeto interdisciplinar para o [8º ano] sobre o tema [migrações: quem chegou e quem saiu da nossa cidade], envolvendo Língua Portuguesa, História e Geografia. Para cada área, liste 2 habilidades da BNCC que se conectam ao tema, com o código e a página onde estão. Depois escreva, em uma frase cada, como as três áreas se encontram no projeto. Não invente código: se não encontrar, diga que não encontrou.
Ele devolve algo como: Português com [EF08LP..] sobre gêneros jornalísticos, História com [EF08HI..] sobre imigração no século XIX, Geografia com [EF08GE..] sobre fluxos migratórios. Não vou colar os enunciados aqui de propósito: confira os seus no site do MEC, no documento da BNCC, e copie de lá. Cada colega confere a própria área — leva 3 minutos por pessoa e evita vergonha na coordenação.
Na primeira vez, no ChatGPT sem o PDF, ele me deu uma habilidade de História com código bonito e enunciado convincente. O Fábio abriu a BNCC: o código existia, mas era sobre outro assunto. Desde então o esboço só sai da minha mão depois que cada um confere a sua área.
Passo 2 — Gere o cronograma de 4 semanas com a carga de cada um
Aqui morriam nossas reuniões. Português tem 5 aulas por semana, História e Geografia têm 2 cada. Qualquer cronograma que ignore isso já nasce morto. Então eu digo pra IA exatamente quantas aulas cada área coloca no projeto.
Agora monte um cronograma de 4 semanas para esse projeto, começando na [segunda, 31 de agosto] e terminando na [sexta, 25 de setembro]. Português cede [2] aulas por semana, História [1] e Geografia [1]. Organize em tabela: semana, área, o que acontece na aula, o que o aluno entrega. Semana 1 é pesquisa, semana 4 é apresentação do produto final. Marque o que pode ser feito em casa e o que precisa ser em sala.
Sai uma tabela de 16 linhas: 4 semanas, 4 aulas por semana, cada uma com dono. Imprimi e levei. Na reunião, a Cristina trocou a aula dela da semana 2 pela da semana 3 porque tinha conselho de classe. Riscou, escreveu por cima, e pronto. Foi a discussão mais rápida que a gente já teve.
No nosso, esqueci de avisar que tinha feriado de 21 de abril na semana 2 — e a aula de História caía nele. A IA não sabe o calendário da sua escola. Se você começar dia 31, repare que 7 de setembro cai numa segunda. Agora eu coloco no comando: “não há aula em [7 de setembro]”. Ela reorganiza.
Detalhe que ajuda quem dá aula na pública: peça “o que pode ser feito em casa” e depois mande “considere que parte dos alunos não tem internet em casa; o que é pesquisa, mova para a sala com material impresso”. Ela move. Na minha turma da manhã, a pesquisa da semana 1 virou entrevista com avô e vizinho, no caderno. Ficou melhor do que a versão com internet.
Passo 3 — Defina o produto final e a rubrica que os três usam igual
Produto final bom é o que junta as três áreas num objeto só. A gente tinha duas ideias: um jornal da turma e um mural com mapa. A IA ajudou a escolher — não porque decide melhor, mas porque lista os prós de cada um em 20 segundos.
Sugira 3 opções de produto final para esse projeto que integrem as três áreas, dizendo para cada uma: o que o aluno produz, quanto tempo de sala consome, se funciona sem computador e como cada área aparece no resultado. Depois, para a opção [jornal da turma com reportagens e mapa], monte uma rubrica de avaliação com 4 critérios, cada um em 3 níveis (iniciante, adequado, avançado), com uma frase clara por nível que aluno do 8º ano entenda.
A rubrica é a parte que mais salvou a gente. Antes, cada professor dava a nota do seu jeito, e o aluno recebia 8 em Português e 5 em Geografia pelo mesmo trabalho. Com quatro critérios escritos em linguagem de aluno — “a reportagem tem título, lide e uma entrevista” —, os três corrigem a mesma coisa e o aluno sabe o que está sendo cobrado antes de começar.
A primeira rubrica veio com um critério assim: “demonstra compreensão crítica das dinâmicas socioespaciais”. Bonito, mas o aluno do 8º ano não sabe o que fazer com isso, e eu também não corrigiria igual à Cristina. Pedi “reescreva cada nível como se fosse explicar pra um aluno de 13 anos o que ele precisa fazer”. Virou “explica no mapa de onde as famílias entrevistadas vieram e por quê”. Isso eu corrijo.
Peça também o bilhete pros pais: “escreva 5 linhas explicando o projeto e pedindo que o aluno entreviste um familiar sobre de onde a família veio”. Voltaram 24 entrevistas em 31.
O resultado
Sexta, fim de abril: o jornal do 8º ano ficou pregado no corredor com 12 reportagens e um mapa de barbante ligando a nossa cidade a três estados e dois países. Corrigimos os três com a mesma rubrica em uma tarde. A coordenadora pediu o modelo pra usar no 9º ano.
Repito o formato a cada bimestre agora — o próximo começa dia 31. O que mudou não foi a IA “fazer o projeto”: foi a gente chegar na reunião com algo pra riscar. Em cima de folha em branco, às 17h30, ninguém discute nada.
26 anos de sala de aula, rede pública de manhã e particular à tarde. Nove turmas. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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